A participação de maçons na Revolução Constitucionalista de 1932 deve ser compreendida com rigor histórico: não se tratou de uma diretriz institucional única, formal e obrigatória da Maçonaria brasileira, mas da atuação de muitos de seus integrantes, a título individual, em defesa de um ideal político que julgavam compatível com os princípios de liberdade, legalidade constitucional e autonomia civil.
A própria documentação comemorativa do Grande Oriente de São Paulo registra a participação de “membros de Lojas maçônicas” na defesa dos ideais democráticos e constitucionais, formulação importante porque desloca o foco da instituição como comando revolucionário para seus obreiros como cidadãos engajados.
A Revolução de 1932 nasceu de um ambiente político de forte tensão entre São Paulo e o Governo Provisório de Getúlio Vargas. Segundo o CPDOC/FGV, a Frente Única Paulista tornou-se porta-voz das reivindicações de reconstitucionalização e autonomia administrativa, articulando-se com setores militares e entidades civis para preparar o movimento armado contra o Governo Provisório. A revolução eclodiu em 9 de julho de 1932, com amplo apoio de segmentos das camadas médias paulistas, mas terminou militarmente derrotada em 1º de outubro daquele ano.
Nesse contexto, a presença de lideranças maçônicas foi relevante sobretudo no campo político, civil, jornalístico e associativo. O Grande Oriente de São Paulo, fundado em 1921 a partir de uma decisão de lojas paulistas orientadas por José Adriano Marrey Júnior, fazia parte desse ambiente de sociabilidade em que republicanismo, constitucionalismo, imprensa, direito e vida pública se encontravam. Pedro de Toledo, chefe civil do movimento constitucionalista, é apresentado pelo verbete do CPDOC/FGV como republicano e maçom, também ocupou o cargo de grão-mestre do Grande Oriente de São Paulo entre 1908 e 1913.
Esse dado não autoriza concluir que a Revolução tenha sido “da Maçonaria”, mas ajuda a compreender por que tantos maçons, formados em redes de debate cívico e defesa da ordem constitucional, se reconheceram pessoalmente naquele movimento.
Também é preciso lembrar que a Maçonaria paulista não era homogênea nem se reduzia a uma única potência. Além do GOSP, havia outras estruturas maçônicas atuantes no período, como a Grande Loja Maçônica do Estado de São Paulo, instalada em 1927, cuja própria história institucional registra que a Maçonaria brasileira se engajava em causas progressistas ligadas aos ideais de igualdade, liberdade e fraternidade. Assim, a influência maçônica em 1932 deve ser lida como influência de homens, redes e valores compartilhados, não como ordem administrativa emanada de uma potência maçônica para suas lojas.
No interior paulista, Itapetininga ocupou posição singular. A Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo reconheceu, em moção de aplauso ao Portal Paulistas de Itapetininga, que o município foi sede do Quartel-General do Exército Constitucionalista no Setor Sul e também de serviços de recrutamento, treinamento, abastecimento, saúde e aprovisionamento.
É nesse cenário que se insere a Loja Maçônica Firmeza, fundada em 19 de dezembro de 1852 e instalada em prédio histórico de grande importância para a cidade. A própria página histórica da Loja registra que sua sede atual, antigo Teatro São João, é uma das referências da memória itapetiningana e que seus participantes estiveram ligados a debates abolicionistas e republicanos. (História da Loja Firmeza 308)
Durante a Revolução Constitucionalista, a Firmeza extrapolou sua função ritualística e fraternal. De acordo com a memória preservada pela própria Loja, ela serviu como hospital de passagem ou hospital de campanha, recebendo feridos que retornavam da frente de combate, realizando triagem e encaminhando-os a outros pontos de atendimento conforme a gravidade. Entre os atendidos esteve Antenor de Oliveira Mello Júnior, pai do maçom Afrânio Franco de Oliveira Mello, que teria passado pela Firmeza antes de seguir para o Hospital da Escola Peixoto Gomide. O mesmo relato informa que veteranos, entre eles Péricles Leonel Ferreira, confirmaram posteriormente a função assistencial da Loja durante o conflito. (Firmeza 308)
Esse papel da Firmeza é historicamente expressivo porque revela uma dimensão muitas vezes esquecida das guerras civis: a retaguarda. Nem toda participação se dá com armas em punho. Há também o socorro médico, a organização de alimentos, a acolhida de feridos, a circulação de informações, o amparo às famílias e a preservação moral dos que lutam.
No caso da Firmeza, a transformação de um templo maçônico em espaço de socorro materializa, de modo concreto, a noção de fraternidade aplicada à emergência pública.
A memória desse serviço, entretanto, foi profundamente ferida por uma tragédia documental. Segundo a tradição preservada pela Loja e por seus memorialistas, após a derrota paulista a Firmeza teria sofrido invasão pelas tropas getulistas, confisco e perda de registros ligados aos combatentes e feridos atendidos.
A consequência foi a destruição ou desaparecimento de documentos que poderiam hoje identificar com maior precisão nomes, datas, trajetórias de feridos e encaminhamentos hospitalares. Neste ponto, convém fazer uma ressalva historiográfica: a própria perda documental faz parte do problema. Quando arquivos são recolhidos, destruídos ou desaparecem em contexto repressivo, a ausência de prova deixa de ser simples lacuna e passa a ser vestígio de violência política.
Essa memória local se torna ainda mais plausível quando colocada ao lado do quadro repressivo mais amplo da Era Vargas. Estudos sobre a Maçonaria no período mostram que a Delegacia de Ordem Política e Social já monitorava reuniões maçônicas em 1933 e que, a partir de 1937, o governo autoritário impôs fechamento e perseguição velada às lojas.
Em Pernambuco, por exemplo, há registro de fechamento de diversas lojas maçônicas e apreensão de seus arquivos, demonstrando que a repressão a oficinas maçônicas e a seus documentos não foi fato isolado.
No caso específico da Firmeza, a própria página da Loja informa que suas atividades ficaram suspensas de outubro de 1937 a janeiro de 1940, período sem registros nos livros de atas, e que em janeiro de 1940 cogitava-se pedir autorização policial para reabertura.
É nesse ponto que se destaca o trabalho fundamental de Afrânio Franco de Oliveira Mello e do professor Jefferson Biajone. Ambos tiveram papel decisivo no resgate, organização e difusão da memória constitucionalista de Itapetininga e do Setor Sul.
A Assembleia Legislativa paulista reconheceu formalmente o Portal Paulistas de Itapetininga nas pessoas de Jefferson Biajone, como presidente-fundador, e Afrânio Franco de Oliveira Mello, como vice-presidente fundador in memoriam, pela diversidade de estudos, pesquisas e trabalhos realizados em favor da memória constitucionalista de 1932.
Esse trabalho pode ser visto no Portal Paulistas de Itapetininga, indicado como referência digital para pesquisas sobre o tema. (Rc32 Itapetininga)
A reedição e digitalização de obras fundamentais também integram esse esforço. O livro Cruzes Paulistas, publicado originalmente em 1936, foi concebido como homenagem aos que tombaram em 1932 e como iniciativa de arrecadação para o futuro Monumento e Mausoléu ao Soldado Constitucionalista.
A edição digital comemorativa de 2022, Cruzes Paulistas: 90 Anos da Epopeia de 32, foi disponibilizada em PDF de livre acesso e teve comissão editorial integrada por Jefferson Biajone e Afrânio Franco de Oliveira Mello, entre outros colaboradores (Cruzes Paulistas: 90 Anos da Epopeia de 32).

Ao final, a história da participação maçônica na Revolução de 1932 deve ser narrada sem triunfalismo e sem apagamento. Não foi a Maçonaria, como instituição monolítica, que decretou a revolução, foram maçons, como cidadãos, jornalistas, advogados, médicos, professores, militares, comerciantes e voluntários, que nela atuaram segundo suas convicções.
A Loja Firmeza de Itapetininga simboliza essa distinção: não aparece como quartel de uma ordem secreta, mas como espaço de fraternidade civil convertido em socorro aos feridos. Sua memória, ferida pela perda documental e pelo silêncio imposto pela repressão, sobreviveu graças ao trabalho de homens que compreenderam que preservar documentos, nomes e relatos também é servir à liberdade.
Fontes bibliográficas e referências digitais
MONTENEGRO, Benedicto et al. Cruzes Paulistas: os que tombaram, em 1932, pela Glória de servir São Paulo. Edição digital rememorativa dos 90 anos da Epopeia de 32. Itapetininga: Museu Histórico de Itapetininga, 2022. A ficha técnica da edição digital é indicada na matéria sobre Cruzes Paulistas (2022). (Piloto Policial)
Portal Paulistas de Itapetininga. Acervo digital de estudos, pesquisas e biografias sobre a Revolução Constitucionalista de 1932 no Setor Sul. O trabalho de Afrânio Franco de Oliveira Mello e Jefferson Biajone pode ser consultado nesse portal. (Rc32 Itapetininga)
BIAJONE, Jefferson; MELLO, Afrânio Franco de Oliveira; demais organizadores. Reedições e trabalhos ligados a Cruzes Paulistas e à memória constitucionalista de Itapetininga, reconhecidos em publicações sobre as edições de 2017 e 2022. (Resgate e Transporte Aeromédico)
FGV CPDOC. “A Revolução Constitucionalista de 1932”. Síntese histórica sobre causas, Frente Única Paulista, eclosão do movimento, derrota militar e consequências políticas. (FGV CPDOC)
FGV CPDOC. Verbete “Pedro de Toledo”. Fonte para a trajetória política de Pedro de Toledo, sua condição de republicano e maçom, e sua atuação no Oriente Maçônico de São Paulo.
Loja Maçônica Firmeza. “A Loja Firmeza e seu Papel Heroico na Revolução Constitucionalista de 1932”. Fonte sobre a atuação da Firmeza como hospital de passagem, o atendimento a Antenor de Oliveira Mello Júnior e a suspensão das atividades no período varguista. (Firmeza 308)
Loja Maçônica Firmeza. “História da Loja”. Fonte sobre a fundação da Loja, sua sede histórica e sua importância para Itapetininga. (Firmeza 308)
Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. Moção nº 64/2023, em aplauso ao Portal Paulistas de Itapetininga. Fonte sobre o reconhecimento público do trabalho de Jefferson Biajone, Afrânio Franco de Oliveira Mello e colaboradores na preservação da memória constitucionalista.
Câmara dos Deputados. Requerimento de Moção de Louvor ao Grande Oriente de São Paulo pelo 101º aniversário. Fonte sobre a fundação do GOSP e a referência à participação de membros de lojas maçônicas na Revolução Constitucionalista.
CARVALHO, William Almeida de. “Pequena História da Maçonaria no Brasil”. REHMLAC, 2010. Fonte sobre o fechamento da Maçonaria no Estado Novo e a situação das lojas maçônicas no período. (Dialnet)
SILVA, Augusto César Acioly Paz. “Maçonaria na Era Vargas: embates entre maçons e integralistas (1930-1937)”. Fonte sobre vigilância, repressão, fechamento de lojas e apreensão de arquivos maçônicos no contexto varguista. (TeseoPress)










